Uma eternidade partilhada

Lembranças da infância em Moçambique inspiram autora a fazer ponte entre a ditadura brasileira e a guerra no país africano

Mia Couto

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Ilustração de Camilo Martins

Prestes, Andreia
Lila em Moçambique

ILS. Camilo Martins Quase Oito • 42 pp • R$ 49,90

Os países acontecem no tempo. Num momento, um país brilha. No instante seguinte, escurece. Os nossos encontros com as terras são cruzamentos de duas entidades vivas. Terras e gente visitam-se reciprocamente. Lugares e pessoas trocam de alma, misturam-se num mesmo novelo vivo que é a viagem sempre inacabada. 

Andreia Prestes foi feliz no seu encontro com Moçambique. E recorda nesse belo livro as circunstâncias dessa recíproca revelação: ela, ainda menina, descobrindo o mundo; e a nação moçambicana, acabada de nascer, brigando para ser um novo país num mundo já tão cheio de bandeiras. A saudade de Andreia converte-se em palavra. Mas também se torna cor, vozes, panos e cantos. A essa arte de contar uma história em figuras e cores se junta Camilo Martins, o inspirado ilustrador. Contos mostram relação com mais velhos em Moçambique e no Brasil

A ditadura militar tinha forçado a família de Andreia Prestes a fugir do Brasil. Parece que aconteceu há muito tempo. Mas a vontade de recriar essa ditadura voltou hoje a ser uma ameaça em terras brasileiras. Este livro não apenas recorda esse passado obscuro. Este livro é um alerta contra a possível renovação desse passado.  

Moçambique do livro é mais que uma geografia: é uma pátria infinita, um regresso reinventado à infância 

A família que escapava à perseguição política encontrou em Moçambique não apenas um refúgio, mas uma terra onde valia a pena voltar a nascer. Os moçambicanos lutavam pela consolidação de dolorosas conquistas: a liberdade, a justiça social, a independência nacional. Nem tudo era feito de felicidade. Acontecia naquela altura a guerra movida por Estados vizinhos contra essa nova nação africana, uma nação negra rodeada de regimes racistas brancos. Essa guerra matou 1 milhão de moçambicanos. E obrigou mais de 4 milhões de pessoas a procurarem, como já tinha acontecido antes com Lila, um refúgio no exterior. As memórias mudam de cor, mas a tristeza nunca toma conta da narradora. 

Recordar, reacordar

Andreia lembra um tempo em que a rua era um quintal. E a varanda da casa era a internet, o lugar onde sonho e realidade vinham brincar. Este Moçambique que Andreia e Camilo celebram é mais que uma geografia: é uma pátria infinita, um regresso sempre reinventado a que chamamos infância. O livro fala dessa infância não como uma nostalgia, mas como uma eternidade partilhada.
Ter infância é como o acordar dos versos de João Cabral de Melo Neto. “Acordar”, dizia o poeta, “é ter saída. Acordar é reacordar-se.” Nessa obra de recordações, nos reacordamos mais juntos, mais felizes, mais cheios de esperança. 

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Cultural e publicado no site: https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/l/uma-eternidade-partilhada
 

Infância, o caminho de casa

por Igor Gonçalveshttps://www.noseducacao.net.br/post/infância-o-caminho-de-casa

Acredito que escrever seja, em última instância, pregar uma peça na vida que fenece a cada instante. Por meio das palavras, nos inscrevemos no mundo e podemos nos eternizar. É a literatura uma forma de jogar com nossa finitude, com nossas limitações diárias. Por isso há textos que conseguem nos deixar em suspenso; que têm o dom enxertar nossas vidas.

NABUCO, Luciana. Okan.

Rio de Janeiro: Quase Oito, 2018.

“Okan”, de Luciana Nabuco é, sem dúvida, um exemplo de livro que consegue nos preencher, não só de esperanças, mas também de questionamentos acerca da criança que fomos e das crianças que nos atravessam os dias. A autora constrói com o bico da pena e com a ponta do pincel narrativas que dialogam com o que há de mais sensível em nós.

Por meio de uma narrativa delicada, a autora apresenta a beleza e a complexidade do ser criança. Acompanhando Mandu, o protagonista da história, é possível nos debruçarmos sobre a infância que se alarga até o seu último limite, com todas as suas alegrias e perdas.

O menino Mandu é teimoso e ao mesmo tempo emocionado com o mundo. Fazia questão de acordar antes do sol nascer, para ser o primeiro a dar bom dia para ele. Desejava saber o que havia do outro lado das montanhas que cercavam sua aldeia. Queria desvelar o desconhecido.

Mandu “sabia que se abrisse os olhos veria além”. Talvez seja esse “ver além” aquilo que perpassa todas as infâncias de todos os tempos. A visão que ultrapassa o imediatismo do cotidiano. O menino, tal qual Manoel de Barros, sabe que seu quintal é maior do que o mundo. E com ele podemos retornar ou redescobrir nossos quintais interiores; brincar nos chão fresco de nossa existência; renovar a alma a partir da palavra poética.

Luciana, com a sutileza da mãe que embala sua criança, apresenta uma infância que foi há séculos sufocada pelo processo de escravização. Mandu é uma criança que vive com seu povo antes da chegada dos europeus, que viriam a dizimar tantas culturas e etnias. Mandu simboliza a infância de cada criança sequestrada de seus pais. Pouco se discute, mas sabe-se que apenas nos primeiros cinquenta anos do século 19, quase 800 mil crianças foram traficadas para o trabalho escravo no Brasil.

Não é raro abrirmos um livro didático e encontrarmos fotos e pinturas de crianças negras escravizadas, trabalhando em plantações, cuidando de outras crianças. Nabuco traz à tona a outra face dessas crianças. Mandu nos mostra que havia crianças na África, e que elas também brincavam, faziam travessuras.

A palavra “okan” em Iorubá significa “coração”. Um dos mais belos ensinamentos que ele recebe de sua mãe é o de que “sua casa é onde você coloca o seu okan”. E não seria a infância o okan a latejar dentro de cada um de nós? Mandu é o coração de nossa infância perdida.

O livro nos proporciona o instante da pausa para olhar o céu, beber água no rio. Podemos até lavar o rosto e contemplar nossa infância, mesmo que em águas turvas. Com Mandu, podemos olhar para dentro de nós mesmos. Podemos ouvir nosso coração, que está plantado em nossa infância.

Sem que seja sua intenção, Luciana nos aponta o caminho de casa. É sempre tempo de voltar. Mesmo que no trajeto ainda seja preciso recolher os farelos de nosso passado, os despojos de nossa história.

Igor Gonçalves é escritor, contador de histórias e professor de Literatura, especialista em Formação de Leitores.

EDITORA QUASE OITO NA FLIP

A gente está muito feliz! Nossa estreia na Flip vai acontecer em grande estilo, ao lado de Eduardo Lacerda e Pricila Gunutzmann (Ed. Patuá) e Natan Magalhães (Ed. Moinhos) na Casa do desejo – Literatura que desejamos, na Rua Fresca, Centro Histórico.

Esperamos por vocês com novidades, autores convidados e muito bate papo sobre livros, histórias, mercado e sarau de poesia!

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