Uma eternidade partilhada

Lembranças da infância em Moçambique inspiram autora a fazer ponte entre a ditadura brasileira e a guerra no país africano

Mia Couto

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Ilustração de Camilo Martins

Prestes, Andreia
Lila em Moçambique

ILS. Camilo Martins Quase Oito • 42 pp • R$ 49,90

Os países acontecem no tempo. Num momento, um país brilha. No instante seguinte, escurece. Os nossos encontros com as terras são cruzamentos de duas entidades vivas. Terras e gente visitam-se reciprocamente. Lugares e pessoas trocam de alma, misturam-se num mesmo novelo vivo que é a viagem sempre inacabada. 

Andreia Prestes foi feliz no seu encontro com Moçambique. E recorda nesse belo livro as circunstâncias dessa recíproca revelação: ela, ainda menina, descobrindo o mundo; e a nação moçambicana, acabada de nascer, brigando para ser um novo país num mundo já tão cheio de bandeiras. A saudade de Andreia converte-se em palavra. Mas também se torna cor, vozes, panos e cantos. A essa arte de contar uma história em figuras e cores se junta Camilo Martins, o inspirado ilustrador. Contos mostram relação com mais velhos em Moçambique e no Brasil

A ditadura militar tinha forçado a família de Andreia Prestes a fugir do Brasil. Parece que aconteceu há muito tempo. Mas a vontade de recriar essa ditadura voltou hoje a ser uma ameaça em terras brasileiras. Este livro não apenas recorda esse passado obscuro. Este livro é um alerta contra a possível renovação desse passado.  

Moçambique do livro é mais que uma geografia: é uma pátria infinita, um regresso reinventado à infância 

A família que escapava à perseguição política encontrou em Moçambique não apenas um refúgio, mas uma terra onde valia a pena voltar a nascer. Os moçambicanos lutavam pela consolidação de dolorosas conquistas: a liberdade, a justiça social, a independência nacional. Nem tudo era feito de felicidade. Acontecia naquela altura a guerra movida por Estados vizinhos contra essa nova nação africana, uma nação negra rodeada de regimes racistas brancos. Essa guerra matou 1 milhão de moçambicanos. E obrigou mais de 4 milhões de pessoas a procurarem, como já tinha acontecido antes com Lila, um refúgio no exterior. As memórias mudam de cor, mas a tristeza nunca toma conta da narradora. 

Recordar, reacordar

Andreia lembra um tempo em que a rua era um quintal. E a varanda da casa era a internet, o lugar onde sonho e realidade vinham brincar. Este Moçambique que Andreia e Camilo celebram é mais que uma geografia: é uma pátria infinita, um regresso sempre reinventado a que chamamos infância. O livro fala dessa infância não como uma nostalgia, mas como uma eternidade partilhada.
Ter infância é como o acordar dos versos de João Cabral de Melo Neto. “Acordar”, dizia o poeta, “é ter saída. Acordar é reacordar-se.” Nessa obra de recordações, nos reacordamos mais juntos, mais felizes, mais cheios de esperança. 

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Cultural e publicado no site: https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/l/uma-eternidade-partilhada
 

Infância, o caminho de casa

por Igor Gonçalveshttps://www.noseducacao.net.br/post/infância-o-caminho-de-casa

Acredito que escrever seja, em última instância, pregar uma peça na vida que fenece a cada instante. Por meio das palavras, nos inscrevemos no mundo e podemos nos eternizar. É a literatura uma forma de jogar com nossa finitude, com nossas limitações diárias. Por isso há textos que conseguem nos deixar em suspenso; que têm o dom enxertar nossas vidas.

NABUCO, Luciana. Okan.

Rio de Janeiro: Quase Oito, 2018.

“Okan”, de Luciana Nabuco é, sem dúvida, um exemplo de livro que consegue nos preencher, não só de esperanças, mas também de questionamentos acerca da criança que fomos e das crianças que nos atravessam os dias. A autora constrói com o bico da pena e com a ponta do pincel narrativas que dialogam com o que há de mais sensível em nós.

Por meio de uma narrativa delicada, a autora apresenta a beleza e a complexidade do ser criança. Acompanhando Mandu, o protagonista da história, é possível nos debruçarmos sobre a infância que se alarga até o seu último limite, com todas as suas alegrias e perdas.

O menino Mandu é teimoso e ao mesmo tempo emocionado com o mundo. Fazia questão de acordar antes do sol nascer, para ser o primeiro a dar bom dia para ele. Desejava saber o que havia do outro lado das montanhas que cercavam sua aldeia. Queria desvelar o desconhecido.

Mandu “sabia que se abrisse os olhos veria além”. Talvez seja esse “ver além” aquilo que perpassa todas as infâncias de todos os tempos. A visão que ultrapassa o imediatismo do cotidiano. O menino, tal qual Manoel de Barros, sabe que seu quintal é maior do que o mundo. E com ele podemos retornar ou redescobrir nossos quintais interiores; brincar nos chão fresco de nossa existência; renovar a alma a partir da palavra poética.

Luciana, com a sutileza da mãe que embala sua criança, apresenta uma infância que foi há séculos sufocada pelo processo de escravização. Mandu é uma criança que vive com seu povo antes da chegada dos europeus, que viriam a dizimar tantas culturas e etnias. Mandu simboliza a infância de cada criança sequestrada de seus pais. Pouco se discute, mas sabe-se que apenas nos primeiros cinquenta anos do século 19, quase 800 mil crianças foram traficadas para o trabalho escravo no Brasil.

Não é raro abrirmos um livro didático e encontrarmos fotos e pinturas de crianças negras escravizadas, trabalhando em plantações, cuidando de outras crianças. Nabuco traz à tona a outra face dessas crianças. Mandu nos mostra que havia crianças na África, e que elas também brincavam, faziam travessuras.

A palavra “okan” em Iorubá significa “coração”. Um dos mais belos ensinamentos que ele recebe de sua mãe é o de que “sua casa é onde você coloca o seu okan”. E não seria a infância o okan a latejar dentro de cada um de nós? Mandu é o coração de nossa infância perdida.

O livro nos proporciona o instante da pausa para olhar o céu, beber água no rio. Podemos até lavar o rosto e contemplar nossa infância, mesmo que em águas turvas. Com Mandu, podemos olhar para dentro de nós mesmos. Podemos ouvir nosso coração, que está plantado em nossa infância.

Sem que seja sua intenção, Luciana nos aponta o caminho de casa. É sempre tempo de voltar. Mesmo que no trajeto ainda seja preciso recolher os farelos de nosso passado, os despojos de nossa história.

Igor Gonçalves é escritor, contador de histórias e professor de Literatura, especialista em Formação de Leitores.

Isidoro e os barcos

Num mundo cada vez mais raso e transbordado de ruídos, Isidoro e os barcos, de Lorena Richter, é um livro para quem precisa escutar a própria voz na popa de silêncio fundo, reparar vista nova em paisagem antiga, atracar na poesia do dia a dia. “Não é o leitor que descobre o poeta. É o poeta que descobre o leitor e o revela a si mesmo”, escreveu uma vez Mario Quintana. É isso o que faz a Lorena, nessa sua prosa tão poética. Com desejo de descobrir leitores e reve- lar a eles o que atravessa o coração de um velho fazedor de barcos, a escritora zarpa pelos sentimentos mais legítimos, genuínos e originais desse homem que tem queda por par- tidas, velas içadas, cais deixados para trás.

Estreante na literatura, e veterana em travessia de gente por dentro, Lorena Richter convida o leitor para embarcar em bordados de risos, luas rabiscadas, sonhos dormidos na gaveta. Nos passos do velho criador de barcos, paramos para vê-lo construir belezas flutuantes, com sobras de con- chas, tampas de garrafas, solas de sapato, latas perfumosas, linhas de amarrar devaneio, pedaços de esquecimentos.

Com um menino quase sempre um passo à sua frente e o bolso cheio de vistas guardadas, Isidoro encontra pesso- as afogadas em xícaras de café e montanhas de papel. Elas não têm tempo para ver os barcos do velho. Ou será que não conseguem ver os barcos do Isidoro por terem os olhos ancorados em amontoados de urgências sem importância? Que inutilidades do mundo mais importam ao Isidoro? Quais são aquelas que ele mais precisa abandonar? Para que geografias esse belo texto da Lorena é mais capaz de te levar?

Não tente achar respostas. Deixe essas e outras perguntas te abordarem. E boa viagem, sem mapas. Ler a Lorena Richter é um passaporte, com visto definitivo, para pegarmos rumo ao que a literatura tem de mais apaixonante e flanarmos por lugares desconhecidos dentro de nós mesmos.

MÁRCIO VASSALLO

Quantas fábulas cabem numa roupa de criança? 

 

Certa vez, em uma livraria de shopping, uma mãe pegou um livro da Q8 que estava exposto na minha frente. Ela estava acompanhada de uma menina usando um vestido da nova coleção de uma das lojas mais bacanas de lá. Ela olhou o livro e deu pra menina que sorriu. Eu olhei as casinhas no vestido da menina e sorri também. Depois de elogiar as ilustrações, a capa, mostrar uma página ou outra, ela me confundiu com uma vendedora e perguntou: dessa estante sabe qual é o mais baratinho?

Eu não aguentei, ri olhando pra menina ali já distraída com qualquer coisa menos o livro e respondi: baratinho é o marido da dona baratinha. E a moça que, felizmente, tinha senso de humor ou alguma lembrança da infância, riu e perguntou quanto custava aquele que estava na mão da filha. Disse o preço e ela pegou o livro de volta e  devolveu-o para a estante: Muito caro.

Então, meio sem pensar – não dou pra essa arte de ser vendedora! – falei: Imagina, deve ser o preço de uma casinha do vestido dela. Não preciso dizer que a moça deu a mão a menina e foi embora sem comprar nada. Ainda bem que nenhum vendedor da loja viu isso, pensei.

É verdade que cada um tem as suas prioridades, paixões, manias e vontades e é, digamos, democrático e necessário aceitar isso. Mas o que ninguém vê é que por trás de cada produto numa vitrine, e principalmente, numa loja com roupas infantis existe uma criação, uma narrativa, e os custos disso, claro, vão embutidos no preço.

Mas a maioria das pessoas tende a reclamar do preço do livro e não de uma roupa que desejam. Isso acontece porque o objeto roupa te faz imediatamente se sentir mais bonito, mais na moda, e é assim que o consumidor quer ser visto.

Já o livro, cujo custo varia até em função do dólar é um objeto que não se esgota no momento da aquisição. Tem que ler! E ler uma vez também não esgota o livro, isso porque cada leitura pode ser uma nova forma de usar. E embora você mal perceba, depois de vestir o livro ele também te faz melhor, mais experiente, mais sensível, mais questionador. Sem falar que carregar o livro no braço desperta curiosos, te deixa mais charmoso, te faz ser olhado, e se sentir mais bonito, na moda, como numa roupa nova.

Confesso que, depois que aquele vestido de casinhas da menina entrou em promoção eu fui lá na loja e comprei um pra Maria Clara! Aí a gente brinca de inventar as fábulas dos moradores da Vila Vestido e tenta adivinhar que histórias passavam pela cabeça do criador daquelas ilustrações.

Patricia Capella

Cochi corre perigo?, uma fábula de amor sobre alergia a leite

Popup_Cochi_FINAL – Clique e Imprima seu pop up do Cochi.

Saiba mais sobre o Cochi:

Francisco tinha 5 anos (ele hoje tem 10) quando foi convidado para ir – sem os pais – à festa de aniversário da amiga Sofia, em um ateliê culinário. Estaria tudo certo se ele não tivesse alergia à proteína do leite. Patricia Capella, sua mãe, achou melhor não deixar o filho ir, pelo risco de ele ter alguma reação mais grave, como tosse, urticária e edema de glote. Valéria, mãe de Sofia, soube da preocupação de Patricia e a procurou para propor soluções e adaptações de cardápios para que Francisco pudesse ser incluído na comemoração da amiga de berçário: era inadmissível que Chicão ficasse de fora. O cardápio da festa foi alterado, cuidados necessários com limpeza e uso de materiais foram tomados.E, então, a festa aconteceu com a presença de todos os amigos de infância. Deu certo: pela primeira vez em cinco anos de vida, Francisco participou de uma festa inteirinha sem leite. Ele fez todas as comidas, salgados e doces ao lado dos amigos e das amigas. E foi assim que com essa festa inclusiva e cheia de carinho, que nasceu a ideia de “Cochi corre perigo?”, escrito por Patricia – e que será lançado no próximo dia 9, às 15h, no Espaço Kids do Shopping Casa & Gourmet (Rua General Severiano, 97, Botafogo), com uma oficina culinária.

O prefácio de “Cochi corre perigo?” foi escrito pela médica alergista Ekaterini Goudouris, professora do Departamento de Pediatria da UFRJ e especialista em alergia e imunologia pela ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia). O livro tem uma característica peculiar:  a  narradora da história é a… Alergia! Na história, a alergia gosta tanto do leãozinho Cochi (que significa Chico ao contrário, uma homenagem de Patricia a Francisco) que não quer sair de perto dele. Por isso, vai ficando. Assim, o próprio Cochi e os leitores percebem que há coisas mais perigosas do que ela.

– Nesta época, estava fazendo uma oficina de literatura infanto-juvenil e percebi que não queria mais ser advogada, nem trabalhar com direito e sim com literatura. Depois da ótima experiência da festa da Sofia, eu não queria colocar a alergia nesse lugar de monstro, de uma coisa ruim, já que provavelmente vamos conviver com ela por muitos anos. E quis dar para o Francisco um olhar mais sensível e mais afetivo sobre essa questão. A alergia queria estar perto por ter sentimento e gostar do Cochi – lembra a ex-advogada e hoje editora de livros, que criou a Quase Oito Editora há um ano.

 

Como é uma fábula, o livro embarca na fantasia: por ser um animal e mamar no peito de sua mãe, que produzia leite animal, não poderia ser alimentado por ela. Mas, para não deixar dúvidas para as mães de alérgicos que amamentam, o Dr. Hipo, um médico hipopótamo meio desengonçado explica o que ela precisa retirar da dieta para voltar a amamentar, mas não vamos contar para não dar spoiler.

– “Na história do livro eu me permiti trabalhar com estes conceitos de leite animal. De um lado a parte literária e todos os meus estudos de escritora, que o que está na ficção não precisa ser real. De outro, as mães que tiveram dificuldade em amamentar. Consegui encontrar um equilíbrio entre essas duas características. O leite humano não causa reação e é claro que o aleitamento materno deve ser sempre estimulado na vida do bebê” – defende a autora.

O projeto gráfico de “Cochi corre perigo?” foi concebido por Julie Pires e o livro foi ilustrado por Marcelo Ribeiro que são pais de outro Francisco, que também tem alergia alimentar a corantes.

– “Os dois foram fundamentais. Deram cor e vida ao Cochi e ao livro.  Sem eles não estaríamos levando essa história a tantas crianças e gerando todo esse movimento de afeto. Cada detalhe, das placas “de alergia” nos números das páginas a um pop-up interativo, para ser construído pela criança, que aproximam o leitor da história do Cochi e gera empatia com a questão da alergia” – lembra Patricia.

Amor, empatia e amizade Para a autora, o livro gera sentimentos no leitor sobre amor e empatia e fala de inclusão, confiança e amizade. Afinal, a Sofia, amiga dos Franciscos, também virou personagem: a Sophie, amiga do Cochi, foi inspirada nela:

– “Quis trazer leveza a esse tema com o livro. E com amigos por perto, como a Sophie perto do Cochi, melhor ainda! Se a literatura servir para gerar empatia a quem não tem o problema mencionado, como a alergia, e a identificação com quem tem, eu já sinto que ele cumpriu seu papel.”

E então: vamos ver se Cochi corre mesmo perigo?

Por Mariana Claudino, jornalista, nutricionista, mãe do Mateus com 9 anos de alergia a leite animal.

 “A menina e a árvore” – resenha de Ju Borel

Valor da amizade é resgatado em livro de Letícia Sardenberg

Poético e sensível, A menina e a árvore, de Letícia Sardenberg, é uma leitura que nos deixa com gosto de quero mais, além de uma doce sensação de esperança. Esta é a quinta obra publicada pela autora, que chega, pela primeira vez, à editora Quase Oito. Nela, a afeição de uma menina por uma árvore envolve o leitor com delicadeza, fazendo-o resgatar os sentimentos mais puros da infância.

 

Como regar uma amizade? Como plantar-se dentro de alguém? É possível confidenciar-se com uma amiga que, aparentemente, não responde aos seus anseios? Em seu livro,Letícia faz brotar uma nova forma de enxergar a construção de vínculos, sem excluir as despedidas, a dor da separação e da saudade.  E, claro, o espaço que a perda cria para a germinação de um novo amor.

 

Embora A menina e a árvoreesteja todo em prosa, a cada página temos a impressão de lermos pequenos poemas, uma das características mais marcantes na escrita de Letícia. Ao acompanharmos a história, vamos nos tornando íntimos da menina e da relação que ela constrói com a árvore que, em seu silêncio repleto de música, vai ficando raiz no coração da pequena.

 

Com belas e coloridas ilustrações de Luciana Peralva, o livro de Letícia não pode faltar na estante de adultos e crianças que prezam e resgatam o valor da amizade em suas vidas.

 

A menina e a árvore foi lançado pela Quase Oito na Festa Literária Internacional de Paraty, em julho deste ano, e terá novo lançamento no dia 25 de agosto, na Biblioteca Popular Machado de Assis, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro.

 

Sobre a autora:

 

Letícia Sardenberg é natural do Rio de Janeiro. Formada em Direito, estreou na Literatura em 2011 com o livro Minissaia, batom & futebol (Zit Editora). Em 2013, publicou Eu, meu cachorro e meus pais separados (Zir Editora), que vendeu mais de 100 mil exemplares em programas do governo. Em 2016, foi a vez de Lágrimas agrestes (Amazon) e, em 2017, seu terceiro livro publicado,Coração de inverno, coração de verão (Zit Editora), foi premiado pela Cátedra UNESCO com o selo Seleção Cátedra 10, como um dos melhores livros publicados naquele ano.

 

Sobre a editora Quase Oito:

A Quase Oito é uma editora independente que nasceu a fim de viabilizar a realização de projetos de Literatura Ilustrada para todas as idades e tem orgulho de trabalhar em parceria com outras empresas, editoras e selos.

Serviço:

 

Lançamento: A menina e a árvore

Data: 25 de agosto.

Local: Biblioteca Machado de Assis – Rua Farani, 53 – Botafogo.

Horário: de13h30 as 16h.

 

Informações:


A menina e a árvore(Editora Quase Oito – 2018)
Autora: Letícia  Sardenberg

Ilustrações:Luciana Peralva

Páginas:28

Valor:R$35 aprox. A editora oferecerá desconto a alunos da rede de ensino público como forma de incentivo a leitura.


Editora Quase Oito: www.quaseoito.com.br
Facebook: /quaseoito | Instagram: @quase_oito

 

“Um divagar em alta velocidade”, resenha de Ju Borel

 Livro de Luciana Peralva é um alento para vida dos jovens

 

Com ilustrações delicadas e texto dócil, temperado na medida certa com doses de humor, Um divagar em alta velocidade, da estreante Luciana Peralva, é daqueles livros que prendem a atenção de pessoas de todas as idades. Para adolescentes, especificamente, representa uma acolhida em seus mais profundos questionamentos. Lançado pela Editora Quase Oito na Festa Literária Internacional de Paraty, em julho deste ano, o livro terá novo lançamento no dia 25 de agosto, na Biblioteca Popular Machado de Assis, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro.

Pelas páginas da obra, acompanhamos a história de Lucia Marra, jovem que divaga sobre as mais diferentes fases de sua vida enquanto faz uma prova de português. Por meio dos pensamentos da menina, conhecermos sua personalidade alegre, as confusões em que se mete com os amigos, as mudanças causadas pelo crescimento, suas primeiras paixões, despedidas e conflitos internos.

“Em linguagem coloquial, a autora trabalha a verossimilhança, a ponto de o leitor se sentir parte da história. Questões como o ponto de vista da menina e o empoderamento feminino nos levam a pensar sobre o papel da mulher no mundo contemporâneo”, explica a escritora e psicanalista Ninfa Parreiras, na orelha do livro.

De fato, a escrita de Luciana Peralva, também responsável pelas ilustrações do livro, é o ajuste perfeito entre o fazer rir e o fazer pensar, de uma leveza poética que poucos escritores são capazes, além de se fazer valer de uma sonoridade deliciosa, como mostra o poema da página 49, A tormenta:

“Ruga, rogo, sai do meu rosto

Leva logo pra longe a loucura

Que cansa, coça, queima o estômago

Talha, tolhe, transforma e tortura

(…)”

 

Um divagar em alta velocidade é a Literatura a serviço daquilo a que se propõe: por meio da ficção, fazer o leitor pensar sobre si e sobre os outros, com a proeza de ainda nos divertir (muito) durante a leitura.

Sobre a autora:

Luciana Peralva nasceu no Rio de Janeiro. É escritora, designer e ilustradora. Começou a estudar literatura infantil e juvenil e não parou mais. Em 2016, venceu o concurso da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) “Era uma vez… uma proposta de leitura compartilhada”, na categoria “relato ficcional”, com o conto Natureza de coelho.

Participou ainda como autora em três antologias: Mapas literários: o Rio em histórias (Rovelle, 2015), Miudezas (Selo editorial Cartonera Carioca, 2016) e Conta-contos (Selo editorial Cartonera Carioca em parceria com a Quase Oito, 2017).

Em formato digital, lançou Presente pra Cecília (Pipoca, 2015) e a série infantil gratuita Livretos Coloridos (iBooks, 2012 – 14).

 

Sobre a editora Quase Oito:

A Quase Oito é uma editora independente que nasceu a fim de viabilizar a realização de projetos de Literatura Ilustrada para todas as idades e tem orgulho de trabalhar em parceria com outras empresas, editoras e selos.

 

 

Serviço:

 

Lançamento: Um divagar em alta velocidade

Data: 25 de agosto.

CEAT – Almirante Alexandrino 4098 – Santa Teresa, de 10hs ao 12:30hs.

Biblioteca Machado de Assis – Rua Farani, 53 – Botafogo, de13h30 as 16h.

 

Informações:


Um divagar em alta velocidade(Editora Quase Oito – 2018)
Texto e ilustrações:Luciana Peralva

Páginas:56

Valor:R$35,00 aprox. Será oferecido desconto a alunos da rede pública de ensino, como forma de incentivo a leitura.


Editora Quase Oito: www.quaseoito.com.br
Facebook: /quaseoito | Instagram: @quase_oito

 

Por que ler Monteiro Lobato? 10 + 2 razões, Por Ninfa Parreiras

 Haverá música infantil? Pintura infantil? A partir de que ponto uma obra literária deixa de constituir alimento para o espírito da criança ou do jovem e se dirige ao espírito do adulto? Qual o bom livro para crianças, que não seja lido com interesse pelo homem feito? Qual o livro de viagens ou aventuras, destinado a adultos, que não possa ser dado a crianças, desde que vazado em linguagem simples e isento de matéria de escândalo? Será a criança um ser a parte, estranho ao homem, e reclamando uma literatura também à parte? Ou será literatura infantil algo de mutilado, de reduzido, de desvitalizado — porque coisa primária, fabricada na persuasão de que a imitação da infância é a própria infância?

Carlos Drummond de Andrade, Literatura infantil. In: Confissões de Minas. Literatura – Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.

 

18 de abril – dia nacional do livro infantil: José Bento Monteiro Lobato

(18 abril 1882/04 julho 1948)

Entre 1920 e 1947, Lobato publicou 23 livros que compõem a coleção “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”. A menina do nariz arrebitadofoi o primeiro, lançado em 1920, com a arriscada tiragem de 50 mil exemplares, vendidos em poucos meses. Ele dizia que não era um autor de infantilidades, e sim um autor infantil. Queria escrever livros para as crianças lerem e morarem: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.” Notamos aí sua afetividade, a valorização do sentimento em relação à leitura.

Hoje, em 2018, qual editora faz uma primeira tiragem de 50 mil exemplares e vende em poucos meses? Uma tiragem de três mil exemplares que costuma ser vendida em até dois anos é bem sucedida.

As desilusões de Lobato com o mundo adulto o levaram a escrever para crianças, na tentativa de formar pessoas melhores: “Um país se faz com homens e livros”é sua célebre frase.

Li a coleção do Sítio na infância, quando repetia a leitura dos meus preferidos: A chave do tamanho, A reforma da naturezae Viagem ao céu. Dona Benta, Tia Nastácia e Visconde eram as personagens de quem eu mais gostava. Achava a Emília chata e como adulta passei a admirá-la. Nos cursos e aulas que ministro, a obra de Lobato está presente, em citações, exemplos e referências. Sua obra me formou como leitora, professora, escritora, psicanalista, mãe… Cada vez mais, percebo que poucas pessoas lêem Lobato nas escolas, nas bibliotecas e nas famílias.

Por que ler a obra de Lobato hoje? Pensei inicialmente em três razões. Logo, o tamanho da lista foi para seis, para 10. Até que tive que frear para 10 + 2 razões para ler Lobato.Seja patrono, seja pai da literatura infantil brasileira, ele foi um divisor de águas na história da literatura infantil e juvenil brasileira. Todas as inovações trazidas por ele na prosa literária prevalecem como modelos de uma literatura comprometida com a infância e a ludicidade. Os autores contemporâneos que começaram a publicar nas décadas de 60, 70, 80 e 90 herdaram muitos dos recursos utilizados por Lobato no início do século passado.

 

  1. A fantasia é o ponto alto das narrativas

A fantasia é o elemento das tramas, da linguagem e dos temas. É na fantasia que tudo acontece. Lobato humaniza os animais, dá vida aos objetos (a exemplo dos bonecos). E coloca objetos, animais e humanos numa mesma situação, com voz. Sem fantasia, não há possibilidade de se viver nem de se fazer literatura. Ele constrói um mundo mágico feito de palavras.

 

  1. As ambiguidades – São muitas as ambiguidades e os paradoxos, o que empresta à obra um caráter móvel, não estático nem congelado. A boneca é de Narizinho, mas quem dirige as brincadeiras é a Emília. Essa geniosa criatura defende suas ideias com surpreendente força para sua frágil constituição de pano e macela. O intelectual Visconde de Sabugosa, ávido leitor e referência de sábias informações, é um vulnerável sabugo de milho.                                                                     Outra ambiguidade é a Tia Nastácia: há os comentários depreciativos sobre as feições da negra (lábios volumosos e olhos arregalados, por exemplo), mas ela dá vida aos personagens mais importantes (Emília e Visconde). Alimenta os moradores e convidados do Sítio, além de ser uma das lideranças.                                                                                   Lobato criou personagens elaborados e complexos. Não se pode falar deles isoladamente. É preciso contextualizar no tempo – no contexto social, cultural e político.
  2. As histórias lobatianas são fábulas nacionais – Além de tradutor de fábulas, ele utilizou recursos de construção dessas narrativas curtas na rede de histórias do Sítio. Conflitos entre animais e humanos, foco em valores universais, textos simples com temas nacionais foram alguns dos caminhos trilhados por ele. Em uma carta ao amigo Godofredo Rangel, de 1916, ele expressa seu desejo de “vestir à nacional”as fábulas de Esopo e de La Fontaine. Ele reparou, com um olhar e escuta atentos, que os seus filhos admiravam as fábulas contadas por Purezinha, sua mulher. E ainda as recontavam aos colegas. Então, por que não fazer histórias assim à brasileira?
  3. Personagens femininas empoderadas e modelos familiares contemporâneos
    Há uma força das figuras femininas como Dona Benta, Tia Anastácia, Narizinho e Emília. Onde estão as figuras masculinas? As duas lideranças do Sítio são mulheres: Dona Benta e Tia Nastácia. Não são casadas, são felizes como estão. Não há a idealização do homem, como aquele que fará a mulher realizada. O modelo tradicional de casal (homem e mulher) nem aparece. A estrutura familiar apresentada é parecida à que temos hoje: casas cuidadas por mulheres, com crianças de pais diferentes, a diversidade de idades e gêneros está presente. As pessoas se realizam independentes de estarem casadas.
  4. A voz e o olhar das crianças
    Na obra lobatiana, prevalecem o olhar e o ponto de vista da criança. Isso nos diálogos, nos conflitos e na concepção de infância. Ele defende o direito da criança ao imaginário e à fantasia. Suas personagens brincam, são questionadoras e contestadoras. O adulto escuta o desejo das crianças. Isso era absolutamente inédito naquela época. Antes de Lobato, as histórias eram moralistas, com o ponto de vista adulto. Ele vai trazer a dialética, o diálogo, o confronto. Tudo pode ser falado e conversado. Ele não infantiliza as situações. Ela dá voz ao infantil– elemento caracterizado, por Sigmund Freud, como aquilo que nos faz criar, escrever, sonhar.
  5. A linguagem é coloquial

A obra de Lobato é um divisor na história da literatura infantil brasileira. Antes dele: textos em português formal, sem trabalhar os pontos de vista, linguagem séria e do mundo adulto. Depois dele: textos coloquiais, exploração das sonoridades. Há ainda a valorização de diferentes pontos de vista. Ele abrasileirou a linguagem. Tornou-a mais musical.

  1. As obras abordam conteúdos educativose temas do mundo adulto

Alguns títulos como Aritmética da Emília, Emília no país da Gramáticae Histórias do mundo para criançastratam de temas escolares. Poderíamos dizer que são livros informativos (não ficcionais). A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ tem um prêmio dessa categoria.

História do mundo para crianças– quando Dona Benta narra fatos históricos – discute questões políticas e sociais da época. Isso não está escondido das crianças. As guerras mundiais, o capitalismo, a economia e outros assuntos são conversados no Sítio, com as crianças, os seres fantásticos e as adultas.

8. A preservação e a valorização da natureza
Antes de existir o movimento ambientalista, a defesa do meio ambiente, havia o enaltecimento de elementos da natureza, recorrentes nas obras de Lobato. Em Caçadas de Pedrinho, A chave do tamanhoe outros, observamos como o meio ambiente era valorizado. Há trechos de bela poesia na descrição de um galho, uma borboleta, um peixe. Há uma integração da natureza e do mundo humano, não como partes, mas uma unidade.

  1. Autonomia do leitor

Na obra de Lobato, o leitor é autônomo para estabelecer identificações. Há liberdade e não culpa para se identificar com uma personagem folclórica, uma clássica, uma de época. Ele dá voz aos personagens, aos diferentes pontos de vista. Com isso, dá voz aos diferentes leitores. Antes da sua obra, não havia essa autonomia, fruto também da dialética filosófica trabalhada por ele.

  1. Trabalho de intertextualidade e de metaliteratura

Lobato foi um grande leitor, com isso, transita pelas obras clássicas de todos os tempos. Foi tradutor, educador, jornalista e educador. É comum o recurso de uma história dentro de outra história e ainda se apropriar de uma obra clássica para falar dela ou dialogar com ela. Personagens memoráveis visitam o Sítio. A conversa entre histórias, de tempos e de locais diferentes, é constante.

Algumas falas da Emília e do Visconde são lições de como escrever: o que valorizar, o que descartar.

  1. Valorização do folclore

Ele traz personagens, fatos, repertórios do folclore nacional e estrangeiro. O mais importante é a retomada da tradição oral como genuína e necessária à literatura.

A literatura infantil surgiu de/a partir do folclore: Charles Perrault (1628/1703), Irmãos Grimm – Jacob (1785/1863) – Wilhelm (1786/1859), Hans Christian Andersen (1805/1875), etc. E Lobato fez bonito ao se apropriar do folclore brasileiro, trazer o saber popular, a tradição oral.

  1. Foco no nacional

Lobato valoriza o que é brasileiro: a linguagem, o folclore, o cenário, o ambiente, as pessoas. Precisamos lembrar que ele era de uma família paulista tradicional, neto de fazendeiro, nascido dois anos após a abolição da escravatura. Tudo o que ele escreveu estava conectado ao seu tempo. Mas também ia além, no sentido de ter antecipado muitas das mudanças que fomos tivemos na história da literatura infantil.

 

Consciência
Hoje completei sete anos.
Mamãe disse que já tenho consciência.
Disse que se eu pregar mentira,
não for domingo à missa por preguiça,
ou bater no irmãozinho pequenino,
eu faço pecado.
Fazer pecado é feio
Não quero fazer pecado, juro
Mas se eu quiser, eu faço.
Henriqueta Lisboa, O menino poeta. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984.

 

O objeto livro, Pat Capella

A escritora e psicanalista Ninfa Parreiras esteve na escola da minha filha para uma palestra sobre a importância do objeto livro para as crianças pequeninas e bebês.
Então, resolvi trazer pra cá e dividir com vocês um pouco das trocas que acabaram acontecendo.
Inicialmente, Ninfa abriu a palestra explicando a importância de deixar a criança, enquanto ainda é bebe, tocar seu livrinho, manusear, sentir o objeto. Hoje existe no mercado uma série de livros com bordas arredondadas, um papel mais firme e resistente, além de livros de borracha e até plástico para levar pro banho. São livros-brinquedos que os pequenos seguram e carregam pra todo canto. Eles querem abraçar, morder, babar, jogar e depois pegar e começar tudo de novo.
Quanto mais eles pegarem, amassarem, carregarem, sujarem, beijarem melhor pra que o livro seja uma companhia, pra que seja um “cheiro de reconhecimento da história que está ali dentro e da história na qual eles se reconheçam”. Seja pelo medo do lobo, pela confiança na casa de tijolos, pela saudade da mãe da Chapeuzinho que não foi pra floresta, enfim… Eles vão estar no livro deles. Por isso é bom deixar que tenham intimidade, sem brigar se rasgar. Depois a gente bota um durex! Ela mostrou os livros-brinquedos mais próprios pra idade dos nossos, à época com 2-3 anos, que são os acartonados, parecem de papelão, com formatos diferentes, bordas arredondadas, não importa.
Começa assim o aprendizado da leitura.
Por isso, Ninfa destaca a importância da leitura do texto, mais do que criar uma versão nossa, adaptada, menor porque é grande ou mais fácil porque “o lobo engoliu a vovó” pode assustar. Eles não concebem a tragédia como nós. Deixar que assimilem essa versão não vai causar nenhum trauma. O que pode causar uma decepção é quando crescerem e sentirem-se enganados, por não termos contado “a verdade”.
Ela reforçou que ao crescerem um pouco mais começarão a apontar com o dedinho as palavras que estamos lendo e se pularmos eles vão ficar bravos! É pra ler tudo mesmo e sem medo. Falou que a literatura infantil hoje é muito rica e recomenda a leitura de textos originais dos contos de fadas, de literatura indígena – ela sugeriu Daniel Mundukuru que é escritor indígena e divulga a cultura dos mundukurus. Além disso, falou da literatura afro-brasileira que é tão importante pra entendermos nossas origens (minha dica é Rogerio de Andrade Brabosa que viaja para a África e reconta aqui as histórias que ouve de crianças por lá).
E não caiam na esparrela do politicamente correto de dizer que existe saci de duas pernas ou chamar Tia Anastácia de afro-descendente, quando Lobato dizia “negra”!
Isso é tudo muito chato. E literatura, pra mim, é o lugar de todas as outras coisas que não são chatas na vida.