Isidoro e os barcos

Num mundo cada vez mais raso e transbordado de ruídos, Isidoro e os barcos, de Lorena Richter, é um livro para quem precisa escutar a própria voz na popa de silêncio fundo, reparar vista nova em paisagem antiga, atracar na poesia do dia a dia. “Não é o leitor que descobre o poeta. É o poeta que descobre o leitor e o revela a si mesmo”, escreveu uma vez Mario Quintana. É isso o que faz a Lorena, nessa sua prosa tão poética. Com desejo de descobrir leitores e reve- lar a eles o que atravessa o coração de um velho fazedor de barcos, a escritora zarpa pelos sentimentos mais legítimos, genuínos e originais desse homem que tem queda por par- tidas, velas içadas, cais deixados para trás.

Estreante na literatura, e veterana em travessia de gente por dentro, Lorena Richter convida o leitor para embarcar em bordados de risos, luas rabiscadas, sonhos dormidos na gaveta. Nos passos do velho criador de barcos, paramos para vê-lo construir belezas flutuantes, com sobras de con- chas, tampas de garrafas, solas de sapato, latas perfumosas, linhas de amarrar devaneio, pedaços de esquecimentos.

Com um menino quase sempre um passo à sua frente e o bolso cheio de vistas guardadas, Isidoro encontra pesso- as afogadas em xícaras de café e montanhas de papel. Elas não têm tempo para ver os barcos do velho. Ou será que não conseguem ver os barcos do Isidoro por terem os olhos ancorados em amontoados de urgências sem importância? Que inutilidades do mundo mais importam ao Isidoro? Quais são aquelas que ele mais precisa abandonar? Para que geografias esse belo texto da Lorena é mais capaz de te levar?

Não tente achar respostas. Deixe essas e outras perguntas te abordarem. E boa viagem, sem mapas. Ler a Lorena Richter é um passaporte, com visto definitivo, para pegarmos rumo ao que a literatura tem de mais apaixonante e flanarmos por lugares desconhecidos dentro de nós mesmos.

MÁRCIO VASSALLO

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