A escritora e psicanalista Ninfa Parreiras esteve na escola da minha filha para uma palestra sobre a importância do objeto livro para as crianças pequeninas e bebês.
Então, resolvi trazer pra cá e dividir com vocês um pouco das trocas que acabaram acontecendo.
Inicialmente, Ninfa abriu a palestra explicando a importância de deixar a criança, enquanto ainda é bebe, tocar seu livrinho, manusear, sentir o objeto. Hoje existe no mercado uma série de livros com bordas arredondadas, um papel mais firme e resistente, além de livros de borracha e até plástico para levar pro banho. São livros-brinquedos que os pequenos seguram e carregam pra todo canto. Eles querem abraçar, morder, babar, jogar e depois pegar e começar tudo de novo.
Quanto mais eles pegarem, amassarem, carregarem, sujarem, beijarem melhor pra que o livro seja uma companhia, pra que seja um “cheiro de reconhecimento da história que está ali dentro e da história na qual eles se reconheçam”. Seja pelo medo do lobo, pela confiança na casa de tijolos, pela saudade da mãe da Chapeuzinho que não foi pra floresta, enfim… Eles vão estar no livro deles. Por isso é bom deixar que tenham intimidade, sem brigar se rasgar. Depois a gente bota um durex! Ela mostrou os livros-brinquedos mais próprios pra idade dos nossos, à época com 2-3 anos, que são os acartonados, parecem de papelão, com formatos diferentes, bordas arredondadas, não importa.
Começa assim o aprendizado da leitura.
Por isso, Ninfa destaca a importância da leitura do texto, mais do que criar uma versão nossa, adaptada, menor porque é grande ou mais fácil porque “o lobo engoliu a vovó” pode assustar. Eles não concebem a tragédia como nós. Deixar que assimilem essa versão não vai causar nenhum trauma. O que pode causar uma decepção é quando crescerem e sentirem-se enganados, por não termos contado “a verdade”.
Ela reforçou que ao crescerem um pouco mais começarão a apontar com o dedinho as palavras que estamos lendo e se pularmos eles vão ficar bravos! É pra ler tudo mesmo e sem medo. Falou que a literatura infantil hoje é muito rica e recomenda a leitura de textos originais dos contos de fadas, de literatura indígena – ela sugeriu Daniel Mundukuru que é escritor indígena e divulga a cultura dos mundukurus. Além disso, falou da literatura afro-brasileira que é tão importante pra entendermos nossas origens (minha dica é Rogerio de Andrade Brabosa que viaja para a África e reconta aqui as histórias que ouve de crianças por lá).
E não caiam na esparrela do politicamente correto de dizer que existe saci de duas pernas ou chamar Tia Anastácia de afro-descendente, quando Lobato dizia “negra”!
Isso é tudo muito chato. E literatura, pra mim, é o lugar de todas as outras coisas que não são chatas na vida.

Posts Recomendados

Comentários

  1. Esse texto está incrível! A introdução dos livros dos meus filhos foi muito cedo…
    A importância do livro ganhou a vida da minha pequena Clara Luz desde o berço.
    No banho, no berço, no carrinho. E confesso, até na barriga, quando eu lia para ela.
    Hoje é uma apaixonada por esses tesouros que tem cheiro de mãe. Porque todo mundo sabe que o cheirinho da nossa mãe é o melhor do mundo e, cá pra nós, a sensação de abrir um livro e sentir o aroma de suas páginas é quase igualmente maravilhoso 🙂
    Com 9 anos lê muito e fala sobre isso com outras crianças, através de um canal caseirinho que ela criou no Youtube.
    Falava para mim que queria ter a oportunidade de falar para todas as crianças do mundo sobre livros e leitura! Arrumou um jeitinho!

    Parabéns pelo texto elucidativo e tão agradável de ler, Patricia Capella!

    • Obrigada, Luciana!!
      O texto foi a transcrição de uma palestra, essa sim incrível!, da Ninfa Parreiras, escritoras e psicanalista dedicada a literatura.

      Um beijo para você e para Clara Luz!

      Boas leituras!!

      Patricia Capella


Adicionar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *