Quantas fábulas cabem numa roupa de criança? 

 

Certa vez, em uma livraria de shopping, uma mãe pegou um livro da Q8 que estava exposto na minha frente. Ela estava acompanhada de uma menina usando um vestido da nova coleção de uma das lojas mais bacanas de lá. Ela olhou o livro e deu pra menina que sorriu. Eu olhei as casinhas no vestido da menina e sorri também. Depois de elogiar as ilustrações, a capa, mostrar uma página ou outra, ela me confundiu com uma vendedora e perguntou: dessa estante sabe qual é o mais baratinho?

Eu não aguentei, ri olhando pra menina ali já distraída com qualquer coisa menos o livro e respondi: baratinho é o marido da dona baratinha. E a moça que, felizmente, tinha senso de humor ou alguma lembrança da infância, riu e perguntou quanto custava aquele que estava na mão da filha. Disse o preço e ela pegou o livro de volta e  devolveu-o para a estante: Muito caro.

Então, meio sem pensar – não dou pra essa arte de ser vendedora! – falei: Imagina, deve ser o preço de uma casinha do vestido dela. Não preciso dizer que a moça deu a mão a menina e foi embora sem comprar nada. Ainda bem que nenhum vendedor da loja viu isso, pensei.

É verdade que cada um tem as suas prioridades, paixões, manias e vontades e é, digamos, democrático e necessário aceitar isso. Mas o que ninguém vê é que por trás de cada produto numa vitrine, e principalmente, numa loja com roupas infantis existe uma criação, uma narrativa, e os custos disso, claro, vão embutidos no preço.

Mas a maioria das pessoas tende a reclamar do preço do livro e não de uma roupa que desejam. Isso acontece porque o objeto roupa te faz imediatamente se sentir mais bonito, mais na moda, e é assim que o consumidor quer ser visto.

Já o livro, cujo custo varia até em função do dólar é um objeto que não se esgota no momento da aquisição. Tem que ler! E ler uma vez também não esgota o livro, isso porque cada leitura pode ser uma nova forma de usar. E embora você mal perceba, depois de vestir o livro ele também te faz melhor, mais experiente, mais sensível, mais questionador. Sem falar que carregar o livro no braço desperta curiosos, te deixa mais charmoso, te faz ser olhado, e se sentir mais bonito, na moda, como numa roupa nova.

Confesso que, depois que aquele vestido de casinhas da menina entrou em promoção eu fui lá na loja e comprei um pra Maria Clara! Aí a gente brinca de inventar as fábulas dos moradores da Vila Vestido e tenta adivinhar que histórias passavam pela cabeça do criador daquelas ilustrações.

Patricia Capella

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